Peleja de Severino Noé com Zé Ramalho na Terra de Avôhai
Afonso Costa - 2005

Vou falar de uma figura
Por muitos já conhecido
Homem de pouca cultura
E também muito sofrido
Mas que sua inteligência
Por Severino vivido.

Andante, Severino Nóe
Assim como é conhecido
Só anda se for a pé
Verdadeiro peregrino.
Pelos caminhos reluz
Noé de Brejo do Cruz
O poeta andarilho.

Caminha por todo lado
por entre nosso Sertão
onde chega é bem tratado
por toda população.
O povo já acostumado
com o poeta citado
lhe dando alimentação.

Contando sua proeza
de outro século passado
foi barão em Fortaleza
Portugal foi seu reinado.
Foi professor da marinha
e Severino ainda tinha
em Rio Branco morado.

Dono d'um grande tear
De aviões, submarinos,
navios pra carregar
Tudo pra qualquer destino.
Já nasceu pra mais de dez
mas nessa só tem os pés
pra caminhar Severino.

No século XV chegou
vindo de outro reinado
e seu navio atracou
e continua ancorado.
Juntamente com a baleia
que morrera na areia
na serra do Brejo, lendado.

Caminhando no sertão
sem ter rumo, sem destino
encontrou com um cidadão
muito jovem e muito fino.
Pra ele se apresentou
e também o convidou
pra pelejar, Severino.

O Poeta Zé Ramalho
Nunca se intimidou
E também não fez atalho
Nessa peleja entrou
E disse para Noé
Pode vir como vier
E a peleja começou.

SN: "Há memórias que de tão resistentes"
diz um trecho de um verso teu.
Num pedaço de imagens reluzentes
a imagem simplesmente era eu.
Pois do fogo nasci primeiro
de um encontro certeiro
que um cometa me bateu.
Nasci do fogo astronômico
e você do oceânico
o segundo depois d'eu.

ZR: Se eu nasci por segundo
como você diz que foi
então diga em que país
o povo é tratado por boi.
E vivem todos marcados
tal qual o gado ferrado
pelo dono o fazendeiro.
Diga logo sem demora
antes de chegar a hora
e fugir no estradeiro.

SN: Zé R. eu não sou homem
de fugir d'uma peleja
vá logo se preparando
disso pode ter certeza.
Agora vou lhe falar
aonde fica o lugar
que você me perguntou.
Esse país não sumiu
e é chamado de Brasil
o mesmo que te marcou.

ZR: Sei que também fui marcado
como muitos perseguidos
hoje estamos coroados
e eles foram vencidos.
Apesar de ter perdido
amigos em tempos idos,
mas tudo já terminou.
Não te dou esse direito
de falar ao meu respeito
nem se quer de como sou.

SN: Falo de tu porque sei
e conheço teu passado
conheci o teu avô
o avôhai consagrado
O terreiro da usina,
as luzes de lamparina
onde você se criou.
Se você calar eu calo
mas se falar, também falo
não falo porque mandou.

ZR: Severino eu percebi
todo seu conhecimento.
mas que peleja escrevi
entre o dono do firmamento.
Aquele que aqui jazz,
chamado de satanás
por toda humanidade.
E eu estou desconfiado
que com ele, tens andado
pelas ruas da cidade.

SN: Respeito é bom e eu gosto
e nem serei humilhado.
mas se quiser eu aposto
que não serei derrotado.
Você vai sair surrado
seu cantador malcriado
que mais parece um tetéu.
E o que me foi perguntado
foi a "Peleja do Diabo
com o Dono do Céu".

ZR: Você está me dizendo
que serei derrotado
mas continuo fazendo
você suar um bocado.
Com pássaro, fui comparado
sou magro, mas não inchado
como você já citou.
Agora vou dar trabalho
em qual LP Zé Ramalho
o Kamikaze gravou.

SN: Zé Ramalho, sua fama
muita gente já conhece.
Mas foi na 3ª lâmina
que Kamikaze aparece
Agora reze uma prece
até pra quem não merece
como é o caso seu.
Sempre fui um solitário
mas sou mais visionário
que o visionário que é teu.

ZR: Severino de Noé
não venha falar em reza
quem ti vê andar a pé
passa por ti e despreza.
Pensam que isso é promessa
outros nem se interessam
mas eu vou rezar por ti.
Disso pode ter certeza
porque a nossa peleja
terminará por aqui.

SN: Zé Ramalho eu agradeço
por essa oportunidade,
só não dou meu endreço
por não tê-lo na verdade.
Mas eu sei em qual cidade
me prestam mais caridade
e por lá me encontra mais.
Nessa cidade de luz
chamada Brejo do Cruz
Zé Ramalho, siga em paz.

Zé Ramalho e Severino
assim se despediram.
Seguiram os seus destinos
como chegaram, partiram.
Em pleno sol do sertão
E pelas estradas de chão
em pouco tempo sumiram.

Severino continua
andando pelos sertões
pelas estradas e ruas
Caminhos e imensidões.
E muita gente se espanta
quando o poeta canta
por conta das confusões.

E o poeta Zé Ramalho
Cada vez mais conhecido
Continuou seu trabalho
Jamais será esquecido.
É cantador consagrado
Por muitos elogiado
Um poeta aguerrido.

Aurélio Santos obrigado
por essa oportunidade.
Meu trabalho aqui mostrado
tem ficção, tem verdade.
E saiu do anonimato
Por isso eu fico grato
Por tomá-lo realidade.