Apresentação
Zé Ramalho

Esse disco traz músicas inéditas, que falam de amizade, amores e lembranças. Marca também o momento difícil pelo qual eu estava passando. As canções refletem sofrimento e solidão. Nessa época (1985), eu estava me mudando definitivamente para o Rio de Janeiro, onde resido até hoje. Não foi um estouro imediato, mas aconteceu de me encomendarem uma música para a telenovela "Roque Santeiro", sobre um personagem que virava lobisomem. Fiz, então, a canção "Mistérios da Meia-Noite", que tornou-se um sucesso nacional na novela e no rádio. Esta música entrou no disco, mesmo depois de ele ter sido lançado. Foi retirada uma faixa e incluída "Mistérios da Meia-Noite" neste meu sétimo álbum, que conta ainda com a presença de Tavito na regravação que fiz de "Paralelas", de autoria de Belchior.



Texto da reedição, 2003
Marcelo Fróes

Durante o período de gravação do disco anterior, "Para Não Dizer que Não Falei de Rock", Zé Ramalho hospedara-se no luxuoso Hotel Meridien, por 2 meses, gerando uma dívida resultante de farras com bebidas importadas e refeições caras, regadas a drogas diversas, que ultrapassaram a casa dos 100 mil dólares. Zé Ramalho foi procurado pelo então presidente da companhia, Marcos Maynard, e ficou sabendo que precisaria repor todas aquelas despesas excedentes. Ocorre que, com este disco que estava sendo produzido, "De Gosto, de Água e de Amigos", de 1985, Zé Ramalho sabia que seria difícil pagar sua dívida. Mauro Motta desistira de produzir o artista, depois que soubera do envolvimento dele com drogas pesadas - principalmente cocaína. Segundo o próprio Zé Ramalho, na época o álcool era usado somente para bochechar quando escovava os dentes. O disco acabou sendo produzido por Renato Correa, dos Golden Boys, numa pressão da gravadora que fez com que o artista permitisse que esta conduzisse os trabalhos.

Zé, que sempre gravou suas bases de violão, teve seu instrumento regravado por outros músicos e praticamente só colocou a voz nas faixas.

"De Gosto, De Água e De Amigos", cabalístico sétimo álbum da discografia individual de Zé Ramalho, chegou desacreditado às lojas em 1985, pouco antes do artista ser procurado por Mariozinho Rocha, diretor musical da Rede Globo. O executivo estava preparando a trilha sonora da novela "Roque Santeiro" e queria uma música "estilo Avôhai" para servir de tema para o lobisomem da trama.

Zé Ramalho fez a música em apenas uma hora e a tocou para Mariozinho pelo telefone. Aceita, a música foi imediatamente gravada e lançada no LP da trilha, pela Som Livre. O sucesso fez com que a segunda tiragem de seu próprio disco já viesse com a música, substituindo - sem conhecimento do artista - a faixa original Absurdo Blues, uma raríssima parceria com Alceu Valença. Com os direitos autorais de seu sucesso no disco com a trilha sonora da novela, que vendeu 300 mil cópias, Zé Ramalho pôde fechar o ano pagando sua dívida com a gravadora, para que então voltasse a ter controle sobre seus discos.

janeiro, 2003