Apresentação
Zé Ramalho

Foi o meu segundo disco. Veio implacável, com letras furiosas e políticas, ditas num tom profético e nordestino, passando para a época uma fornada de músicas, que marcaram a minha carreira para sempre. Aqui neste disco estão: "Admirável Gado Novo" (que virou hino popular), "Garoto de Aluguel" e "Beira-Mar", além de "Jardim das Acácias" e "Frevo - Mulher". Gravado em 1980, tem um sabor de luta e vitória, amor e revolta, que o poeta sentia na época em que fez estas canções. Tempo de ditadura militar e perseguição aos artistas. Na capa, aparece ao meu lado, o genial José Mojica Marins (Zé do Caixão), que representou a figura do diabo nesta imagem de cordel e surrealismo que criamos para ilustrá-la.




Texto da reedição, 2003
Marcelo Fróes

Quando Zé Ramalho chegou de vez ao Rio de Janeiro, no início de 1976, já trazia na bagagem uma sacola cheia de músicas fresquinhas. Quando gravou o primeiro LP para a CBS, fez questão de explorar o lado místico e lisérgico da obra - puxando por Avôhai. Para este segundo LP, gravado em 8 canais no estúdio da CBS em junho de 1979, ele sacou das mais politizadas. Com isso, Admirável Gado Novo e Garoto de Aluguel, além de Frevo Mulher, tornaram-se as músicas mais regravadas do compositor.

Quando o primeiro disco chegou às lojas em 1978, no show de lançamento Zé já apresentou Admirável Gado Novo. A reação da platéia àquela verdadeira seqüência para Caminhando (de Geraldo Vandré) garantiu sua presença neste segundo LP. Seu conteúdo político-social fez com que já ficasse conhecida antes mesmo de ser lançada um ano depois. Zé não chegou a sofrer censura, apenas recebeu alguns telefonemas. Talvez seu jeito hippie fizesse com que não o levassem muito a sério.

A companhia investiu na produção do disco, que acabou incluindo uma capa bem cara... paga pelo próprio Zé - que a partir daquele momento já passava a envolver-se pessoalmente também na parte gráfica de seus discos -, inspirada nas capas do Pink Floyd, que já mexiam com a cabeça das pessoas nas vitrines das lojas. A companhia negou-se a fazer a capa projetada por Zé, então ele decidiu bancar a produção da mesma com o seu próprio bolso. Como estava começando a ganhar dinheiro e gostava de investir no que entendia ser bom, Zé reuniu Zé do Caixão, Xuxa Lopes e Hélio Oiticica para uma sessão de fotos na feira de São Cristóvão, com direção do cineasta Ivan Cardoso.

"A Peleja do Diabo com o Dono do Céu" fez mais sucesso que o primeiro LP e rendeu ao artista seu primeiro disco-de-ouro, entregue na festa dos 25 anos da CBS no Brasil, realizada no Canecão, ocasião em que Roberto Carlos recebeu 17 prêmios acumulados. Naquela época, final da década de 70, Zé Ramalho assinava as faixas-título de sucesso dos LPs de Elba Ramalho ("Ave de Prata"), Geraldo Azevedo ("Bicho de Sete Cabeças"), Fagner ("Eternas Ondas") e de sua mulher Amelinha ("Frevo Mulher").

Janeiro, 2003