Apresentação
Zé Ramalho

Neste disco, eu traço definitivamente meu compromisso com a cultura nordestina. Com todos os segmentos de raízes e formas de cultura popular. Contemporâneo e futurista no seu olhar por cima do horizonte. Ele amplia minha habilidade como intérprete e músico e explode num grito de revolta, através das canções contra a exploração das classes sociais menos favorecidas. É um álbum duplo e conta ainda com as participações nordestinas de: Hermeto Paschoal, Naná Vasconcelos, Fagner, Elba Ramalho, Ivete Sangalo, Flávio José, Cascabulho, Dominguinhos, Pepeu Gomes, Armandinho e Robertinho do Recife, ainda como produtor.



Apresentação / Faixa por faixa
Assis Ângelo

O ACASO fez o paraibano ZéRamalho produzir o mais importante álbum de sua carreira, que é este. Ele conta que certa noite encontrou no chão de Feira de Santana, BA, uma fita-cassete do seu conterrâneo Flávio José. Ao escutá-la, maravilhou-se com a toada O Meu País, de Livardo Alves, Orlando Tejo e Gilvan Chaves. A partir daí, heureca!, acabara de surgir o projeto que resultou nestes dois discos.

Foi há dois anos. Logo passou a ouvir tudo quanto era autor nordestino, anônimos e consagrados. O que pretendia, de fato? Simples: mostrar a cara do Nordeste ao Brasil do jeito que ele é, sem retoque, sem fantasia, sem nada. Em branco-preto, nua e crua, como se diz por lá. Mas para isso precisava se reciclar, pois há muito deixara o seu sertão. Ouviu Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Ari Lobo. E mais, muito mais gente. Viajou. Nessa viagem constatou a grandeza real da nação nordestina. Reencontro importante, fantástico. Banhou-se no sol da cultura. Renovou energias para pôr a boca no trombone, com força. Quer mostrar sua identidade ao mundo. É nordestino. A digital está na alma, no coração. Vem do lugar de uma gente que luta bravamente contra omissões e mazelas gerais. Conclui: Euclides da Cunha tinha razão: o sertanejo é antes de tudo um forte. Não é pra menos. Uma pausa. Respirou fundo e selecionou o que foi possível: canções de êxodo, paixão e luta. Esta a tônica forte. Teve de deixar de lado Patativa e Gordurinha. Incluiu seis inéditas suas. Era necessário, pois refletem uma visão bem pessoal da geografia física e humana da sua região. Mais: com elas pôde alternadamente alinhavar a história que passará daqui a pouco a contar. História bonita, não só por falar de amor, respeito, solidariedade; mas também por falar de uma raça que não desiste fácil da tarefa de viver. Emociona. Vai fundo, o cantador. Declara-se indignado com o abandono do povo. É político, é romântico. A cara da gente. Ri e chora quando chega a hora. E aí ele nos convida para conhecer o Nordeste, ao lado de uma trupe que vai de Hermeto Pascoal a Elba Ramalho, de Ivete Sangalo a Fagner, de Flávio José ao grupo pernambucano Cascabulho. Dá pra resistir?

INTRÓITO À NAÇÃO
O primeiro disco deste álbum abre-se com uma pequena obra-prima inédita, de caráter sinfônico, grandiloqüente, em que o autor, em boa hora, e para surpresa geral, troca os modos apocalípticos e visionários que há mais de 20 anos o tornaram famoso para, tal e qual raro repórter consciente da realidade bruta do mundo que o cerca, enfronhar-se de corpo e alma Nordeste adentro, com o propósito de contar um pedaço da história marcada a ferro e fogo de que ouviu falar. História trágica. Nesta peça ele fala da grandeza da região formada por nove Estados, que somados alcançam uma área de 1.561.177,8 km2, habitada por quase 50 milhões de almas resistentes às intempéries. Destaque para o efeito vocal.

O MEU PAÍS
Começa a viagem pelas brenhas do sertão. Transvestido de repórter, o viajante abre os olhos e aguça as antenas. Das lembranças vivas do Avôhai faz suas armas; e armado segue firme estrada afora. A viola é companheira: a voz rouca e trovejante ressoa ao longe, denunciando as safadezas do homem moderno. Das paisagens, as contradições saltam aos olhos: o país é rico e pobre ao mesmo tempo. Revolta-se. Do fundo do peito tira força para cantar o martelo de Livardo, Orlando e Gilvan. Orlando é autor de Zé Limeira, o Poeta do Absurdo, livro que o iniciou no mundo da cantoria. A canção é forte, o refrão uma chicotada: "Tô vendo tudo, tô vendo tudo / Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo".

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES
O cantador segue estrada, tirando do matulão histórias de sobrevivência. Escora-se nos versos de Caminhando. Nos lembra que "Somos todos iguais, braços dados ou não" e que "Quem sabe faz a hora, não espera acontecer". Essa canção foi feita em cinco dias, logo após a realização da passeata dos cem mil, em junho de 68, no antigo Estado da Guanabara. O autor inspirou-se no alto de um edifício da Cinelôndia, quando observava o movimento. Da dezena e meia de versões conhecidas, incluindo as do rei Gonzaga, Simone, Ana Belém, Ernie Sheldon e Sergio Endrigo, a melhor é esta. Os efeitos sonoros a enriquecem. Atenção para o marchar das tropas, o rufar dos tambores, os canhões, as sirenes gemendo.

LAMENTO SERTANEJO (Forró do Dominguinhos)
O cantador continua a colher dados para compor a história do nordestino que cai no oco do mundo em busca de cidadania e dignidade. Esta, como a canção anterior, fala de campos (sertão), multidão e boiada caminhando a esmo. É conformista: um duro retrato da realidade que vive o migrante que, fora da sua região, quase sempre sente-se como um peixe fora d'água, impotente. Foi gravada originalmente por Gil, na segunda metade dos anos 70. É fácil identificar-se com ela: "Eu quase não falo / Eu quase não sei de nada / Sou como rês desgarrada / Nessa multidão / Boiada caminhando a esmo". A solidão é uma realidade amarga, que depois de ferir, mata. Atenção para o arranjo de Zé e a sanfona de Dominguinhos.

TEMPORAL
O viajante apressa o passo. Está revoltado. Sua voz possante é golpe de punhal. "Eu percorri todo o sonho / No meio da madrugada / E vi plantações de balas / Sementes da espingarda", ele canta, antes de virar a mesa: "Quem cala, consente a fala / E os gritos do capitão." Quer é que as estrelas que enfeitam os ombros do general escureçam para sempre. Aqui, atenção: a percussão de Firmino desenha uma sinfonia de deserdados. "Quem viu a terra gemer / Nos dentes brancos do mar" e percorreu "todo o sonho / No meio da madrugada" não pode nunca ter medo. Mais: "A fina dor da ferida / Doendo até no facão / E o mapa da minha vida / Na palma da minha mão." Revela ele, assim, o seu maior documento.

SERES ALADOS
Esta é a segunda música inédita do disco. Encerra o primeiro dos cinco blocos previstos. E como em todas as outras, não traz bateria, só percussão. Ela indica que num tempo não muito distante "Não mais estaremos calados / Como seres alados / Que voam no silêncio / Da sua solidão..." É o natural contraponto ao lamento Sertanejo (Eu quase não falo / Eu quase não sei de nada...'): o sonho do fim da submissão, do jugo, da opressão. Como um dom Quixote das caatingas, o cantador prossegue a caminhada, com voz própria e raciocínio sábio, ensinando um bê-a-bá bonito: "Poder é saber da criança / Da saúde do velho / Das mulheres famintas / Com tantos pra criar." Brado forte a ribombar no oco do mundo.

BEIJO-MORTE-BEIJO
Nesta canção cadenciada ao modo galope, o cantador prossegue a viagem cantando de forma metafórica coisas necessárias de vida: "Beijo por beijo não vale a pena dar", ensina. É como se também dissesse que viver sem uma razão não vale a pena viver. "Navegar é preciso..." A chamada à responsabilidade soa clara: o ser humano precisa logo se reprogramar para uma nova vida, deletando por si próprio todo o lixo que tem acumulado na mente. Os autores dessa pérola, Pedro e Jaiel, são radicais; mas Pedro, um errante violeiro e vocalista que por dois anos (78/80) seguiu os passos do cantador Brasil afora. Dicção apurada, voz afiada, guitarra indomável, é Zé Ramalho cantando.

MENINOS DO SERTÃO
Mais uma vez, como na irretocável faixa 5, Zé vê-se cantando em tom memorialista uma canção que nem é sua, nem é inédita e já tem cinco anos. Também mais uma vez o ritmo e a percussão de Firmino, somados à sanfona de Dominguinhos, criam cenário ideal para essa canção ganhar força inesperada, surpreendente mesmo, por isso capaz de permanecer horas a fio latejando no bem-fundo da nossa consciência, talvez nos chamando à atenção e nos cobrando uma posição pelas barbaridades praticadas no dia-a-dia contra os humildes. Somos todos culpados. Quem cala, consente. "A Deus imploro mais carinho e atenção / Tirai a canga do pescoço dessa gente / Que só precisa de amor, trabalho pão". É Zé implorando.

ELE DISSE
Em nenhum outro disco da sua carreira, e já são 15 até Igora, o cantador de Brejo do Cruz mostrou-se tão crítico e participativo da vida social do Nordeste e do Brasil como neste Nação Nordestina. Seu tom áspero, de denúncia e revolta. Nesta faixa, que retirou do fundo do baú, demonstra, para surpresa geral, o respeito e a admiração até então insuspeitos nutridos por um político que soube administrar a coisa pública com brio e exatidão, em prol dos carentes. "O povo de quem fui escravo / Não será nais escravo de ninguém", canta, repetindo o legado getulista da letra de Edgard Ferreira, imortalizada por Jackson do Pandeiro. Atenção para a fala final do ex-presidente e as flautas de César Michilles.

MOURÃO VOLTADO EM QUESTÕES
O cantador junta-se ao povo. "Para que serve o saber?", pergunta. "Para compreender a vida." Cético, volta a indagar: "Para que serve o juiz?" Novamente, em uníssono, o povo responde: "Para fazer a justiça". Mas o cantador sabe que nem sempre é assim. Também sabe, e sabe muito bem, que essa situação precisa mudar. Um dia alguém não disse que o artista deve estar onde o povo está? Pois então. Ao fim da primeira parte dessa viagem pelas brenhas do sertão, fica a impressão de que o cantador não esteve só. A seu lado estiveram Luiz, Naná, Dodô, Robertinho, Mingo, Chico, Arthur, Roberta, Rick, Zé Gomes, Zé Leal, Duane, Flávio, César, Dênis, Eduardo, Fabrício, Lucas, Adriana, Silveirinha, o povo.

VIOLANDO COM HERMETO
O Disco 1 é mais reflexivo e menos cadenciado do que este, que abre com um belo duelo de escaletas, violas, zabumbas, pandeiro, triângulo e cabaça. À frente desse tarrabufado, o imprevisível mago alagoano Hermeto Pascoal faz das suas: o endiabrado Naná Vasconcelos também, criando a ilusão de um trem saindo de uma estação e levando gente sabe Deus para onde. É assim que se inicia a segunda parte da viagem do cantador. Na primeira ele correu estrada, engoliu poeira e denunciou injustiças. Sofreu. Lembrou a vida severina dos nordestinos, que se mistura à sua. Sem perder o fio da meada, ele segue a pé e de pau-de-arara, ameaçando ir à Lua num foguete. Aqui as canções de êxodo, que fazem chorar.

HINO NORDESTINO
Nesse galope xoteado, o cantador faz suas as palavras do autor baiano. Nelas ele lê o retrato dos irmãos nordestinos que partem sem rumo nem prumo em direção ao desconhecido, que pode ser o Rio, São Paulo ou Nova lorque. A maioria não volta, tem vergonha do fracasso. Com a percussão e efeitos de Naná, de arrepiar, e o contrabaixo de Luís Antônio no tempo certo, o cantador torna-se inestimável cúmplice do conterrâneo perdido no fim do túnel. Ele o afaga, o aconselha: "Oh! Deixar chover Oh! Deixar molhar / Ouve o que eu digo cantando esse xote..." O que ele canta é também uma recomendação: "Cuida do tempo que é pra não se atrapalhar". Atenção para o violar de Zé e o sanfonar de Waldonys. Perfeitos.

BANDEIRA DESFRALDADA
No seu primeiro disco, de 78, o paraibano Vital Farias já cantava essa canção feita para Elba, que, aliás, ao lado do primo canta, aqui, tal e qual um sabiá em dia de grande festa. É memorável. Meio baião, meio toada, essa canção carrega no seu bojo insuspeitos toques da vida nordestina, e cresce com a citara magistralmente pilotada pelo mágico Robertinho de Recife. Poético, lírico, lúdico, o texto brinca, simbolicamente, com o corpo feminino. Portanto, o espelho é a mulher, a partir do qual o poeta engendra a história de uma raça de cabras da peste. A interpretação do cantador se enriquece com o arranjo de Robertinho, que incluiu viola, violino, celo, flauta e sax soprano, ritmo e percussão. Pungente.

PAU-DE-ARARA
Uma canção conta uma história. Somadas, contam muitas: até a de um país, de uma nação. É o caso. No matulão sem fundo de Luiz Gonzaga havia muitas canções, se sabe. Nele cabia de um tudo. E ainda sobrava espaço para esperanças perdidas e achadas. Dele saiu Pau-de-Arara, gravado originalmente em maio de 52 como maracatu, pelo próprio Gonzaga, e regravado três anos depois como baião pela rainha do gênero, Carmélia Alves. Zé o redescobriu há uma década, antes de embarcar para os Estados Unidos. "Eu penei, mas aqui cheguei", ele cantou sob aplausos. Curiosidade: Pau-de-Arara integrou o repertório de Dizzy Gillespie, que o gravou na Alemanha, em ritmo de bossa nova, num disco de 45 rpm.

AMAR QUEM EU JÁ AMEI
Como Pau-de-Arara, esta também pode ser classificada de canção do êxodo. O cantador dela extrai com estudada perícia toda a tristeza e melancolia possíveis e depois nos devolve revestida de alegria, no embalo lascado do forró-frevo agalopado. E simples, como o quê. Uma história comum que bem diz do perfil e caráter do nordestino. E a história de quem chega de longe e tem medo de voltar. Desculpa? Não. A dica é ir sempre em frente, pois "Quando a ida não é boa / A volta não pode prestar". Filosofia pura. Contagiada pelos ritmos e percussão dos cabras Zés e Duane, a baiana Ivete Sangalo solta o verbo e cai na dança. Atenção para o que sai da guitarra amalucada do elétrico Armandinho. O arranjo é de Zé.

GARROTE FERIDO
Agora é o mouro Fagner quem convida para o passo no tom certo do forró envenenado pela guitarra alucinada de Pepeu Gomes, Fagner e Zé já são um perigo; e juntos, inda mais acompanhado da parafernália rítmica e percussiva do mago Mingo, do baixo de Jamil, da sanfona de Waldonys e das cordas furiosas de Luiz Antônio, o que dizer? No embalo, Zé desemaranha o novelo em que se acha sua história; talvez idêntica à história do conterrâneo que deixou o seu lar distante. História triste, de ausência e saudade que leva ao tempo em que "andava pela poeira / daquele velho brejo...", com "cacimba de água, cavada no ouro...". Hoje machucado, conclui, arrasado: "A brincadeira é outra para contar". Gonzaga puro.

PARAÍ-BA
O reencontro com a terra querida quase sempre rende bons frutos, como este baiãozinho agalopado da única autora incluída no roteiro desta viagem. Foi composto em 79. Ficou engavetado mais de ano, até que o cearense Messias Holanda o gravou. A melodia é fácil e bonita, e a letra um grande achado. Fala da Paraíba e dos paraibanos, isto é, do Nordeste e dos nordestinos: "Paraíba do Norte, do caboclo forte / Do homem disposto esperando chover / Da gente que canta com água nos olhos / Chorando e sorrindo, querendo viver..." Perfeito, diz tudo. No mais, palmas para o paraibano de Monteiro, Flávio José, que chega aos agudos arrepiando coração. Nesta também, o arranjo de Zé é irretocável.

EU VOU PRA LUA
Primeiro foi gravada em ritmo de rojão por Ari, em junho de 60; em seguida por Genival Lacerda, em ritmo de rojão-martelo. Composta nove anos antes de o homem pôr os pés no solo lunar, fez grande sucesso, mas recebeu poucas regravações. Uma delas é esta, em ritmo de forró, com oportuna participação vocal do cascabulho Silvério Pessoa e de sua trupe, em instrumentos que vão desde a sanfona à flauta. A letra continua atual, o dito pelo dito: "Não adianta mais se fazer crítica / Ninguém acredita na política...". E nesse tom segue, até referir-se à lua, onde "Não falta hospital, não falta escola...". E como em boa parte do mundo árabe, decreta: "É fuzilado lá quem come bola..." Imaginem se o verso aqui vira lei.

ESSES DISCOS VOADORES ME PREOCUPAM DEMAIS
Lua, disco voador... Canção atual. Agora são os seres de outros mundos que aguçam a curiosidade e a preocupação do cantador neste martelo assinado pelo pernambucano Oliveira de Panelas. Diante do ouvinte, é como se passasse um filme. Os efeitos programados facilitam essa imagem. Canta o cantador, com voz tonitruante: "Essa gente pequenina / De viagem intergaláctica / Vem saber nossa gramática / Ou mudar nossa doutrina...?! dúvida atroz, discussão antiga incluída propositadamente no roteiro desta viagem, que está, chegando ao fim. Esse martelo, gênero comum do reino da Cantoria, foi primeiramente gravado pelo autor, em março de 81, e logo depois por Teca Calazans.

DIGITADO EM POESIA
Com este meio martelo (gênero comum do reino da Cantoria, desenvolvido em versos setissílabos), o cantador chega ao fim da viagem satisfeito, ciente da importância do projeto-nação. Faz sua parte, deixa sua marca. Pessoalmente, sabe que a viagem serviu para ele próprio reafirmar-se como parte integrante do cenário da região. É de lá, certo? Mostrou mazelas, abriu feridas, indignou-se, divertiu e divertiu-se. A vida não é só tristeza, ele sabe. O novo milênio bate à porta. 'Nesse tempo a região / Que se chamou de Nordeste / Terra de cabra da peste / De Silvino e Lampião / Do padre Ciço Romão / Gigante da romaria / Da fé que nos alumia / Quando o tempo é escuro / Estarei pelo futuro / Digitado em poesia.' É promessa.